Perguntas frequentes

Em baixo encontrarão as perguntas que mais frequentemente têm sido feitas pelos pais e as respectivas respostas.

P. Porque é que ele/ela tinha de nos contar?

R. Muitos pais pensam que seriam mais felizes se não soubessem. No entanto é importante que percebam que se não soubessem nunca chegariam a entender verdadeiramente a vossa filha ou filho. Uma boa parte da sua vida ser-vos-ia ocultada nunca chegando a conhecê-la integralmente.

O facto da vossa filha ou filho vos ter revelado a sua orientação sexual é em si um sinal do amor que sente por vocês mas também da necessidade do vosso apoio e compreensão. Afinal quem deveria saber senão os pais? A nenhuma outra minoria se pede que esconda dos seus próprios pais o que a torna “diferente”!

P. Porque é que nos fez isto?

R. Em primeiro lugar o que é que ela ou ele vos fez? Mostrou coragem e amor em vir ter convosco e contar algo tão pessoal e importante. Devem sentir-se orgulhosos e felizes por terem vindo ao vosso encontro. Eles são os vossos filhos e filhas, os mesmos que sempre amaram. Eles não vos revelaram a sua orientação sexual para vos magoar ou vos tornar infelizes. Só quiseram ser sinceros convosco e com eles próprios.

Muitos pais sentem um enorme ressentimento quando postos perante a orientação não heterossexual dos filhos. Este sentimento baseia-se na ideia de que ser homossexual é uma questão de escolha e de que foi uma decisão consciente, talvez mesmo tomada expressamente para os magoar.

De facto, os gays, as lésbicas, os bissexuais não escolheram a sua orientação sexual. A única escolha a fazer é entre serem honestos em relação a essa orientação, ou esconderem-na. E esconderem-na corresponde a um enorme sofrimento. Significa viverem dia após dia numa mentira. Que pais gostariam que um filho seu vivesse assim?

É verdade que, numa fase inicial da vida sexual, pode haver um período experimental. Essa procura é apenas uma parte da descoberta da sua identidade. Mas se os vossos filhos tomaram a decisão de vos revelar a sua orientação é porque já percorreram um caminho duro e difícil, muitas vezes passando por verdadeiros tormentos no processo de auto-aceitação.

Tentem pôr-se por uns momentos no seu lugar: vocês a viverem num mundo maioritariamente homossexual e terem de esconder a vossa heterossexualidade sobretudo das pessoas que mais amam?

P. Porque terá demorado tanto tempo a contar-nos?

R. Muitos pais sentem-se culpados por os filhos terem passado por tanto sofrimento sozinhos, antes de lhes contar. Muitas vezes passam-se anos sem que saibam que os filhos são homossexuais. Há pais que interpretam isto como um sinal de falta de confiança. Ser-lhes-á até doloroso aperceber-se de que não conheciam o filho como julgavam conhecer.

Lembrem-se da dificuldade que teve o vosso filho, ou filha, em se perceber e se assumir como homossexual, mesmo para si próprio. Muitos desse jovens, durante esse tempo, não se sentiram confortáveis consigo próprios ou sentiram-se inseguros em relação à sua sexualidade. Lembrem-se que vivemos ainda numa sociedade que não compreende, ou rejeita, a minoria homossexual.

Quando se sentirem decepcionados pensem que ela/ele não sabia de antemão qual seria a vossa reacção, ou se calhar já a conhecia demasiado bem. Se calhar nós, pais, dissemos um dia coisas negativas sobre os homossexuais, e daí a dificuldade acrescida dos nossos filhos em nos confessarem quem são.

P. O que teremos feito de errado?

R. Muitos pais sentem-se culpados quando descobrem, ou são informados, da homossexualidade dos filhos. Alguma psicologia e psiquiatria vêm-lhes dizendo, há anos, que aquilo que os seus filhos são é resultante da sua educação, ou seja, que a “culpa” é sua. De facto, nenhum pai ou mãe teve ou tem um tal poder sobre os seus filhos. Há homossexuais em todo o tipo de famílias com todo o tipo de ambiente familiar.

As teorias que procuram explicar a origem ou causa da homossexualidade são
especulativas. A sexualidade dos indivíduos – incluindo a orientação sexual – é o produto de muitos e insondáveis factores. E os comportamentos sexuais só devem ser encarados como problemas quando dão mal-estar aos próprios ou interferem com a liberdade alheia, e não porque os valores sociais dominantes os consideram errados.

P. Será o meu filho / filha discriminado? Terá dificuldades em arranjar, ou manter, um emprego ou ser fisicamente ameaçado?

R. Devemos responder, infelizmente: “Sim tudo isso é possível.” Depende muito de como ela ou ele decidirem viver, que tipo de emprego procurarem, como decidirem agir. Depende ainda da tolerância e da abertura da sociedade em que vivem perante as minorias.

Mas também é preciso dizer que, felizmente, as atitudes em relação aos homossexuais têm vindo a mudar para melhor e são cada vez mais positivas. Essa mudança deve-se ao trabalho de um, cada vez maior, número de grupos (entre os quais queremos que a AMPLOS se inclua) que contribuem, há anos, para alterar esta situação, e estão dispostos a ajudar os que passarem por essas ou outras dificuldades. Enquanto escondermos esta realidade nada se alterará.

P. Será que o meu filho/ filha ficará sozinho quando envelhecer caso não venha a constituir a sua própria família?

R. Talvez, ou talvez não, conforme construa, ou não, relações duradouras com os seus parceiros. Há muitas razões para não se ter filhos que nada têm a ver com o ser-se homossexual ou heterossexual. Para alem disso, ser-se homossexual não é ser-se estéril, não lhes está vedada a possibilidade de procriação.

O facto é que essa situação de solidão afectará quase todos nós. Os esposos morrem, os casamentos acabam, os filhos vivem longe, e muitos casais jovens não chegam a ter filhos. Muitos de nós ter-nos-emos de ajustar à solidão quando envelheceremos ou encontrar novas formas de construir relações de inter-ajuda.

Por outro lado, a maioria dos gays e lésbicas desenvolvem relações duradouras e a comunidade homossexual preocupa-se em apoiar calorosamente os seus membros.

P. Será que irão ter problemas legais?

R. É difícil responder a esta pergunta dado que as questões legais são complexas e devem ser analisadas caso a caso.*.

A Constituição de 1975, revisão de 2004, declara no seu artigo 13º que “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.”

No Código Penal de 1982, as relações homossexuais deixam de ser consideradas crime (desde que não incluam menores)

O Código Penal em vigor, de 15 de Setembro de 2007, revogou o artigo 175º e eliminou todas as menções à homossexualidade, passando, pelo contrário e pela primeira vez, a penalizar explicitamente o incitamento à discriminação com base na orientação sexual, e prevendo também o agravamento penal explícito de crimes motivados pela homofobia.

*A AMPLOS propõe-se organizar uma sessão para um esclarecimento mais detalhado desta questão. Propõe-se ainda organizar uma outra sessão sobre direitos dos homossexuais e protecção: como e a quem recorrer em caso de serem alvo de discriminação.

P. Será que devemos levar os nossos filhos ao psiquiatra para que sejam curados?

R. Como é amplamente reconhecido, pela comunidade psiquiátrica mundial, a homossexualidade não é uma doença e por isso não tem qualquer sentido falar em cura.

Em Dezembro de 1973 a Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association) declarou que a homossexualidade em si não é um distúrbio mental ou doença. A APA assumiu oficialmente a posição de que seria anti-ético mudar a orientação sexual de um homossexual.

A 7 de Agosto de 2009 o jornal Público noticiava mais uma resolução importante subscrita pela esmagadora maioria dos elementos que compõem a APA. (ver em “Notícias”, neste blogue).

Pensem um pouco em como as mentalidades e os costumes têm mudado. Há séculos atrás acusavam-se pessoas “inconvenientes” de serem bruxas e elas eram queimadas vivas por isso. Hoje isso faz algum sentido? E para não irmos tão longe, pensem em como, até há bem pouco tempo, uma mulher divorciada era estigmatizada pela sociedade; ou como as mulheres não tinham direitos e dependiam, até legalmente, dos maridos. Hoje isso é considerado um absurdo e uma injustiça, até pelas pessoas mais conservadoras. A mudança de atitudes perante os homossexuais vem no seguimento destas mudanças. Só que mais lentamente, porque mais recente.

Contudo, muitos homossexuais interiorizaram de tal maneira os preconceitos da sociedade, que não conseguem aceitar a sua orientação sexual como sendo normal. Nesses casos pode acontecer que seja útil um acompanhamento psiquiátrico ou psicológico no sentido da sua auto-aceitação. Deve-se, contudo, ter especial atenção na escolha de um especialista, não vá ele próprio estar imbuído desses mesmos preconceitos.

P. O que andará ele ou ela a fazer?

R. Muito provavelmente, o que o seu filho anda a fazer é a namorar, como qualquer outro jovem. Ou a querer começar uma relação de casal, como qualquer outra pessoa. Deverá ter conhecido alguém por quem se sentiu muito atraído, num amor recíproco.

As imagens de grupos de homossexuais fechados sobre si mesmos, promíscuos e obcecados por sexo, ou se aplicam a uma minoria cuja projecção é exagerada pela curiosidade e o opróbio, ou se aplicam a um período de experimentação na vida das pessoas, comum a heterossexuais e a homossexuais. A maior parte dos homossexuais são pessoas como as outras, sem traços exteriores visíveis, desejosas de encontrarem alguém com quem possam construir uma relação amorosa satisfatória. Não são necessariamente “efeminados” nem necessariamente ultra-“masculinos”; não se relacionam só com outros homossexuais; e os comportamentos perversos e criminosos, como a violação ou a pedofilia, não estão relacionados com a orientação sexual.

Todos os preconceitos contra os homossexuais são isso mesmo, preconceitos. Diferem pouco daqueles que existem contra negros, judeus ou mulheres. E têm a mesma causa: a Ignorância e a ausência de Tolerância para com os que são “diferentes”. Por outro lado, um dos aspectos que mais assusta os pais e quem não conhece a homossexualidade, são as práticas sexuais em si. Ora, elas nada têm de especialmente diferente das práticas heterossexuais: em ambos os casos, trata-se de usar o que a natureza lhes deu – assim como a afectividade e a fantasia – para obter e dar prazer.

P. Devemos contar à família?

R. Os pais que ainda estão a lutar pela sua própria aceitação da homossexualidade do seu filho/filha muitas vezes preocupam-se que as outras pessoas venham a saber. Como lidar com as perguntas que estão constantemente a ouvir “Já tem namorado(a)?” “Quando pensa casar-se?”

O nosso conselho nestas situações é que não se devem abrir com ninguém sem o consentimento do vosso filho/ filha. É a sua vida que está em causa. Eles têm o direito de decidir quem deve e quem não deve saber, como e quando.

Melhor será falarem quando isso deixar de constituir para vocês um problema. Demora tempo a aprender a aceitá-lo, e a menos que consigam demonstrar uma atitude positiva, comunicarão, inevitavelmente, a vossa infelicidade e as vossas dúvidas aos outros. Quando se sentirem preparados, sentirão então quanto é mais fácil abrir-se com as outras pessoas.

P. O que dirão os vizinhos?

R. Esta é uma questão muito real, especialmente para as famílias que vivem em meios pequenos cuja vida social depende em grande medida da boa relação com os que os rodeiam. A resposta a esta questão é em tudo semelhante à anterior.

P. Nós já aceitámos a situação, mas porque é que eles querem exibi-la?

R. Acontece com frequência que, mesmo os pais que aceitaram a homossexualidade dos seus filhos continuam a protestar contra o facto de eles quererem assumi-la publicamente. Sentem-se desconfortáveis e irritados quando confrontados com a exibição pública de atracção sexual e de manifestações de afecto entre indivíduos do mesmo sexo, mesmo quando desprovidas de qualquer forma de exibicionismo.

Pensem até que ponto esse tipo de reacção não resulta do modo como vocês foram educados sobre as questões de sexo em geral, e sobre a homossexualidade em particular. Ainda que seja perfeitamente compreensível, deverão olhar para essas vossas reacções como se tratando de um problema vosso, e não como um problema dos homossexuais.

Se os heterossexuais podem demonstrar os seus afectos em público, não há nenhuma razão lógica para os homossexuais não poderem. Se acharem que o comportamento sexual deve ser algo privado, então deverão aplicá-lo a todos os indivíduos.

P. Como poderemos aprender a lidar com tudo isto?

R. Acreditamos que o melhor será ouvir os testemunhos de outros pais. Por isso vos convidamos a estar presente nas reuniões da AMPLOS.

(texto adaptado de “A Guide for Parents” da PFLAG e “Brochure for Parents” da Outproud, EUA, e ainda de “Carta aos Pais” de Miguel Vale de Almeida a quem foi pedida autorização para a divulgação)

Quando seu filho lhe diz que é gay

O QUE NÃO DEVE FAZER

*Transmitir ao adolescente/jovem adulto de que se trata apenas de uma fase e que com o tempo vai voltar a ser heterossexual, desvalorizando todo o trabalho de preparação que o jovem fez para partilhar com os pais o que sentia

*Criar um pacto de silêncio sobre as questões relacionadas com os afectos e sexualidade dos jovens

*Criar um clima de confrontação e hostilidade que faça o adolescente/jovem adulto sentir-se ainda mais isolado do que já se sentia antes do coming out (“sair do armário”)

*Fazer ameaças de que ou o adolescente muda a sua orientação sexual ou é afastado da família ou expulso de casa

*Proibir o adolescente ou jovem adulto de se encontrar com os seus amigos ou namorados(as) que muitas vezes são apontados pelos pais mais intolerantes como responsáveis pela situação

*Fazer formulações culpabilizantes de que os filhos são gays ou lésbicas porque os pais falharam ou porque a orientação sexual dos filhos resulta de experiências infantis (ex: a mãe estava demasiado próxima e o pai era distante)

*Fazer comentários homofóbicos e que ridicularizam pessoas gays ou lésbicas

*Procurar psiquiatras e psicólogos com o objectivo de mudar a orientação sexual dos filhos

O QUE DEVE FAZER:

*Criar um contexto seguro para que o adolescente ou o jovem adulto fale abertamente sobre os seus sentimentos

*Assumir que, à semelhança do que foi vivido pelos filhos, os pais também necessitam de tempo para se adaptar à nova realidade

*Procurar informação especializada sobre questões relacionadas com a orientação sexual

*Se necessário, procurar um profissional de saúde mental especializado em questões de sexualidade

*Conhecer gays e lésbicas que lhe possam assegurar que uma orientação sexual minoritária não é um problema e que lhe mostrem que essas pessoas podem ter vidas completas como homens e mulheres a todos os níveis

*Procurar outros pais que têm filhos gays e lésbicas e que viveram situações semelhantes

Fonte: Psicólogo e psicoterapeuta PEDRO FRAZÃO na revista VISÃO on line 10.12.2009