Guia – Papéis de género na infância

Esta Guia pretende ser um apoio para famílias de crianças com comportamentos ou papéis de género distintos dos esperados. Apresenta algumas ideias e reflexões em torno de perguntas frequentes sobre esta problemática e disponibiliza diferentes recursos para o seu esclarecimento.

1. Algumas crianças são diferentes nos seus comportamentos de género.

Por vezes as crianças têm comportamentos e atitudes inesperados que não correspondem ao género que lhes foi atribuído à nascença (em função do seu sexo). Ou seja, por exemplo, meninos que gostam de brincar com bonecas, vestidos, maquilhagem e brinquedos considerados “femininos” e meninas que exprimem o seu desejo de ser super-heróis e têm interesse em brinquedos considerados “masculinos”.
Estas situações podem gerar preocupação e sofrimento em pais e mães que não compreendem o que está a acontecer e têm medo que os seus filhos, ou filhas, sejam rejeitados nos diferentes meios em que se inserem, em particular em meio escolar e familiar.

2. Porque é que esta situação acontece?
Geralmente, as pessoas esperam que indivíduos do sexo masculino se comportem de forma “masculina” e os do sexo feminino de forma “feminina”, concebendo esses comportamentos como “naturais”. Por exemplo, imaginam que desde o seu nascimento as mulheres são mais sensíveis e cuidadoras e que os homens são mais agressivos e competitivos.
Contudo, estas associações não têm absolutamente nada de natural e a prova disso é o facto de, noutros lugares do mundo e até mesmo na nossa sociedade, em outras épocas, homens e mulheres nem sempre se tenham comportado da forma como hoje se comportam. Se pensarmos em algo tão simples como o facto de, na Escócia, os homens usarem saia (kilt) e isso estar associado ao masculino, podemos verificar que as diferenças entre o masculino e o feminino são sobretudo culturais.
Aquilo a que chamamos de género masculino ou género feminino não tem a ver com o corpo-em-que-se-nasce mas com a educação que se recebe, com o ambiente onde se cresce e com a sociedade na qual se está inserido. O problema é que tradicionalmente achamos que estes comportamentos de género estão determinados pela biologia e, por isso, quando uma pessoa se comporta de uma forma diferente, achamos que não é normal e que deve haver algum problema associado. Tudo isto se agrava quando falamos de crianças que demonstram, de forma mais contínua, estes tipos de comportamentos.
Talvez ajude pensarmos em masculino e feminino não como polos opostos, mas como tendo entre si uma linha, um continuum de possibilidades e experiências, que vai do estereótipo masculino ao estereótipo feminino.
Quando falamos em género, falamos de uma aprendizagem em grande parte inconsciente. Ou seja, aprendemos a comportarmo-nos como homens e mulheres a partir do que vemos à nossa volta. A infância é por isso uma fase de aprendizagem de papéis de género.
Embora para os adultos seja evidente, para as crianças não é óbvio que certas coisas sejam reservadas apenas para meninas e outras para meninos. Como também não é óbvia a sua identificação com um ou com o outro género. Algumas crianças, quando confrontadas com a questão do género, não sabem responder com qual se identificam. Enquanto algumas afirmam identificar-se com um dos géneros, outras defendem depender da situação (nuns dias identificam-se mais com o género masculino enquanto noutros se identificam com o feminino), havendo mesmo as que afirmam não se sentirem nem de um género nem do outro. Também há as que se identificam com o género oposto.
As crianças que experimentam esta ‘’variação de género’’ fazem-no em busca da sua própria identidade ou simplesmente por exploração. Esta atitude é denominada de comportamento de género não normativo por consistir numa expressão de masculinidade ou feminilidade, contrária ao sexo biológico, e que por isso sai da norma social. Quando confrontados com estes comportamentos, alguns pais e mães acabam por considerar que os seus filhos ou filhas têm algum problema, o que os pode levar a pensar que ao longo do seu percurso de pais, fizeram algo de errado. Temem que os seus filhos ou filhas sejam diferentes dos outros e que no futuro possam vir a identificar-se como gays, lésbicas ou transexuais/ tansgéneros.

• Uma coisa de cada vez.
Em primeiro lugar, estas crianças não têm problema algum. Nem transtornos psicológicos, nem desajustes biológicos. Se estivéssemos sós, numa ilha deserta, com os nossos filhos/filhas, provavelmente não teríamos nenhum problema. O problema está no que os outros pensam sobre este tipo de comportamentos, ou seja, nos preconceitos sociais associados a estas vivências. O fundamental será então ensinar as outras pessoas, que se relacionam com estas crianças, a compreendê-las, em vez de tentar que sejam as crianças a mudar os seus comportamentos.
Em segundo lugar, não devemos pensar que a família (em particular os pais) possa estar a fazer algo de negativo. Negativo será reprimir ou castigar estes comportamentos, porque prejudicam a autoestima e a construção da personalidade ao longo da vida, e põem em causa o bem-estar e a saúde mental das próprias crianças. Os pais e pessoas próximas deverão pelo contrário, acompanhá-las, escutá-las, apoiá-las.
Em relação ao sentimento de diferença, será interessante refletir a este respeito. Por vezes, achamos que o nosso filho é diferente porque gosta de brincar com maquilhagem e vestidos, quando os meninos da mesma idade não brincam dessa forma. Mas não pensamos que talvez os outros meninos não tenham tido a oportunidade de o fazer, porque a sua família não os tenha deixado, ou por lhes terem dito demasiadas vezes que estes brinquedos são de menina. Se as crianças escolhessem os seus próprios brinquedos, sem pressões (publicidade, mensagens dirigidas a determinado género, estereótipos) ficaríamos surpreendidos com o resultado.
Existem muitas atividades que a maior parte das crianças não pratica e que ninguém acha estranho quando apenas algumas crianças o fazem. Por exemplo, nem todas as crianças gostam de olhar para as estrelas e saber a sua posição no céu. Alguém acha diferentes as crianças que o fazem? Não, porque são neutras do ponto de vista de género, porque esta atividade não questiona os estereótipos de género que moldam, preocupantemente, os comportamentos sociais.

• Que futuro para estas crianças?
Em relação ao seu futuro, tem de ficar claro que ter comportamentos de género diferentes dos tradicionais não está relacionado com uma determinada orientação sexual. Há homens gays que nunca brincaram com bonecas, há mulheres heterossexuais que foram muito masculinas durante a sua infância. Aliás, a ideia de que os homens mais femininos serão gays e as mulheres masculinas lésbicas está baseada no estereótipo e preconceito, homofóbico, não na realidade. O mesmo em relação à transexualidade. O facto de uma criança se comportar, ou se identificar, com uma expressão de género diferente do sexo/ género atribuído à nascença, durante a sua infância, não significa que irá identificar-se sempre com esse género ou que queira ser do género oposto. É possível que um menino se sinta feminino nalgumas situações ou momentos da sua vida, mas isso não quer dizer que não se sinta um rapaz. O mesmo se passa com as meninas. Os pais e pessoas próximas deverão por isso estar atentos, ouvir os seus filhos ou filhas, ser capazes de distinguir, ou ir compreendendo, se a expressão de género é experiencial ou identitária para melhor corresponder às necessidades e anseios das crianças.

3. Como posso ajudar?
Alguns elementos chave para acompanhar as crianças neste processo:
Na maior parte destas situações, o medo e a incompreensão estão mais presentes nos adultos do que nas próprias crianças. No seu mundo de jogos e diversões, as crianças não sentem que estejam a fazer nada de errado. Mas os adultos conhecem as consequências de se transgredir as normas de género e sabem que podem ter consequências difíceis. Estes medos e preocupações levam pais e mães a reagir de forma negativa transmitindo essa insegurança às crianças. Uma insegurança que é nossa, dos adultos, não das crianças.

• O papel da família.
Alguns pais e mães sentem-se confrontados com o seguinte dilema perante tais situações:
Devem acompanhar o seu filho/filha e deixar que se comporte como deseja, o que irá reforçar a sua autoestima e segurança, ou devem corrigir estes comportamentos para evitar que seja vítima de discriminação ou bullying?
Sob este ponto de vista, a criança tanto sofrerá pela violência do ambiente onde se insere como pelo facto de ter sido obrigada a reprimir os seus comportamentos. Neste sentido, mudar o nosso ponto de vista poderá ajudar a deixar para trás este dilema. É possível acompanhar os nossos filhos ou filhas e deixá-los exprimirem-se como desejam, e ao mesmo tempo explicar-lhes que algumas atitudes poderão não ser compreendidas por algumas pessoas.
Mas isto não quer dizer que tenham de mudar o seu comportamento. Apenas tomar consciência da perceção que os outros têm. Por exemplo, se o nosso filho nos diz que se quer vestir de fada no carnaval da escola, podemos comprar o vestido de fada e ao mesmo tempo explicar que, se calhar, algumas pessoas da sua turma não vão gostar de o ver assim vestido e vão dizer coisas menos agradáveis. Mas que, da mesma forma, outras pessoas irão gostar tanto quanto nós desse seu disfarce. Não podemos impedir todas as situações de discriminação mas podemos acompanhar as crianças para que elas compreendam como funciona a nossa sociedade. Se proibíssemos a criança de ir à festa de carnaval vestida de fada, talvez estivéssemos a evitar possíveis situações de discriminação, mas também estaríamos a fazer com que ela sentisse que a sua escolha seria errada acentuando a sua situação de inadaptação.
É necessário mostrar-lhe que a sua escolha não é errada. Provavelmente, a função mais importante que a família pode ter nestes processos é acompanhar a criança orgulhosamente à sua escola, para que ela não se sinta culpada dos preconceitos dos outros, pelo contrário se sinta apoiada e valorizada.
Quando as famílias escolhem reprimem ou castigam estas atitudes ou comportamentos, pela sua própria dificuldade em lidar com eles, as crianças deixam de os desempenhar à sua frente, passando a viver uma vida dupla e escondida.
É Fácil de compreender que se as crianças desejam fazê-lo é mais saudável que os partilhem connosco, que nos deem a oportunidade de ficarmos do seu lado e de sentirem que podem falar sobre o que pensam de e como se sentem, sem constrangimentos.
Há casos em que pais e mães não concordam entre si sobre o caminho que devem seguir em relação a esta situação e enviam mensagens contraditórias aos seus filhos ou filhas. Um aceitando a situação enquanto o outro a recusa. Estas situações são difíceis de gerir mas temos de pensar que os pais e mães são referências muito importantes no desenvolvimento da personalidade dos seus filhos e filhas e por isso a sua atitude é de uma enorme responsabilidade.

• Autoestima e comunicação.
Grande parte dos profissionais de saúde que acompanham famílias com crianças com comportamentos de género não normativos, sentem que uma das melhores estratégias para a promoção da saúde mental e social destas crianças é potencializar a sua autoestima. Quanto mais seguros forem de si próprias, melhor poderão fazer frente às situações de conflito. Promover a autoestima das crianças significa fazer com que sintam aceites, respeitadas, apoiadas e amadas. E, sobretudo, fazer com que saibam que aquilo que em certas pessoas provoca crítica e preconceito, para as pessoas que as amam é pelo contrário recebido com orgulho, amor e respeito.
Algumas famílias com crianças com comportamentos de género não normativos dizem aceitá-los completamente, deixando que os seus filhos ou filhas façam o que quiserem sem se preocuparem com a situação. Esta atitude de “deixa andar” consubstancia-se num certo silenciamento do tema. Mostra que simplesmente ao não falarem do tema, estão à espera que o tempo passe e que as crianças cresçam. Esta posição não demonstra aceitação mas alheamento. É importante falar e comunicar com as crianças, perguntar-lhes como se sentem, da mesma maneira que perguntamos por outros assuntos que lhes dizem respeito e as preocupam. É na infância que a discriminação é vivida de forma mais dolorosa. O silenciamento retira às crianças a possibilidade de ouvir das pessoas mais próximas incentivos à construção das pessoas que são, criativas e construtivas.
Na sociedade em que nos inserimos é muito provável que os nossos filhos e filhas recebam mensagens de que o que estão a fazer é mau, errado e até que sejam discriminados em algumas situações. É muito difícil impedir todas essas mensagens, mas podemos preparar e apoiar as crianças para fazer frente a estas situações. É importante que, ao mesmo tempo que estamos a apoiá-las, também criemos canais de comunicação e confiança para que possam falar de como se sentem. Algumas crianças que sofrem de bullying nas escolas ficam caladas porque sentem vergonha e pensam que não devem contar à família. Este medo torna-as mais vulneráveis porque têm, em segredo, experiências de discriminação e violência. As famílias têm de criar canais fortes para estas situações não ficarem em silêncio e para que possam, posteriormente, intervir.
Em relação a esta questão, observa-se que as meninas com comportamentos masculinos geralmente têm uma melhor autoestima do que os meninos com comportamentos femininos. Provavelmente, isto deve-se ao facto da nossa sociedade ser predominantemente machista, as mulheres que se comportam de um modo masculino são menos estigmatizadas do que os homens com comportamentos femininos.

• Referências.
Na maior parte dos contos de fadas, bandas desenhadas, filmes e outros recursos infantis, aparecem histórias de meninos masculinos e meninas femininas, príncipes e princesas, etc. Estes materiais acabam por invisibilizar outras vivências e criam um imaginário nas crianças (e também nos adultos) onde existe apenas uma forma de ser. Por tudo isto, seria importante para as famílias que fossem capazes de introduzir referências de diversidade nos materiais e jogos lúdicos, por exemplo, de forma a que estas crianças não se sintam sozinhas e incompreendidas. Para que elas possam ver que há outras crianças como elas que são felizes e que estão bem, que há outros modelos com os quais se podem identificar.
Podem utilizar-se diferentes recursos como livros infantis, filmes ou desenhos animados que contam histórias de crianças com comportamentos de género não normativos.

• Não é apenas uma questão de género.
Em alguns casos, e face a estas situações, este tipo de comportamentos pontuais e quotidianos acabam por esconder outros traços da personalidade das crianças. Isto é, a personalidade de uma criança (e de um adulto) é muito mais do que a sua expressão de género. A expressão de género é importante mas não deve ser a principal caraterística para descrever uma pessoa. É importante ver para além destas atitudes masculinas e femininas.

• Acompanhar o meio social da criança
Para ajudar a compreender esta problemática, é importante aprendermos a compreender e a normalizar estas situações. Os principais espaços de socialização das crianças são a família e a escola. Por isso, é positivo falar com os outros adultos da família sobre os gostos e atitudes do nosso filho ou filha, para que tenham isto em consideração e ajudem a reforçar a sua autoestima. Para evitar situações desconfortáveis, há famílias que tentam manter estes comportamentos em segredo para não serem julgadas pelos outros membros da família (tios, primos, avós) mas geralmente é difícil mantê-los em segredo porque as crianças agem livremente. É provável que algumas pessoas não compreendam o que se passa ou possam achá-lo estranho, mas é precisamente por isso que é necessário falar com naturalidade da situação e ser positivo em relação a esta questão. Isso irá permitir que o resto da família participe e possa ter um papel ativo na proteção, reforço e livre desenvolvimento da criança. Por exemplo, podemos orientar a nossa família e amigos sobre que prendas podem oferecer no Natal.
Em relação à escola, é importante partilhar estas vivências com os professores, que de resto muito provavelmente já se terão apercebido da situação. Na escola e ambientes similares é onde acontecem a maior parte das situações de discriminação vividas por crianças com comportamentos de género não normativos. Será importante informar os responsáveis destes espaços sobre o que devem fazer se acontecerem situações de discriminação. Também é provável que os educadores se sintam um pouco desorientados sobre esta questão, sendo importante explicar-lhes que o nosso filho ou filha demonstra determinados comportamentos que não são considerados do seu género mas que, e para nós, tal não representa nada de errado. Devemos deixar claro que queremos que o ambiente onde se insere respeite e aceite a sua personalidade e as suas expressões.
Explicar, orientar e acompanhar as pessoas que partilham o ambiente com os nossos filhos ou filhas é uma tarefa difícil mas é um elemento chave para a criança ter uma maior liberdade de se expressar e não ter receio de ser como é.

4. O que acontece se o nosso filho ou filha for gay, lésbica, bissexual ou transexual?
Em primeiro lugar ser gay, lésbica, bissexual ou homossexual não tem nada a ver com ser transexual. A homossexualidade, bissexualidade e heterossexualidade têm a ver com a orientação sexual, ou seja, com o facto de se sentir atraído por pessoas do mesmo género, do género oposto ou de ambos. A transexualidade refere-se à profunda identificação com o sexo/género oposto ao que foi designado à nascença. É frequente existir confusão sobre estas questões mas devem ficar claras para poderem ser explicadas aos nossos filhos ou filhas.
Em segundo lugar, se o nosso filho ou filha for gay, lésbica ou trans s é provável que o comunique, na altura que lhe parecer certa, se tiverem sido criados bons e seguros canais de comunicação. Se não o disserem (que são gays, lésbicas, bissexuais, trans), não é preciso insistir. Eles/elas só precisam de se encontrar a si próprios/as e decidir como se identificam. Aos pais e mães cabe o papel de estarem presentes para quando precisarem. Isso é o mais importante.

5. E quem é que ajuda as famílias a lidar com os seus sentimentos?
Acompanhar uma criança com comportamentos de género não normativos não é fácil.
Como já foi dito, o ambiente onde a criança se insere pode criar situações conflituosas e estas situações podem fazer com que os pais e mães experimentem emoções contraditórias.
São diversas as emoções que as famílias costumam experimentar: culpa, vergonha, tristeza, negação, medo, etc. Será importante poder expressar estas emoções em contextos específicos e procurar pessoas que acompanhem nesse processo. O contacto com outras famílias obriga-nos a pensar sobre as nossas expectativas sobre os nossos filhos e filhas e refletir sobre questões em que nunca tínhamos pensado, como o facto de que ser homem ou mulher não é assim tão evidente como se julgava/pensava. A AMPLOS proporciona encontros e recursos de apoio a estas famílias
Devemos ter esperança e encarar esta situação não como um problema mas como um desafio que muitas famílias superam com sucesso e que reforça o vínculo emocional com os seus filhos e filhas.

Janeiro de 2016.